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O paladar não retrocede. E ainda bem!

Existe uma expressão que diz: “paladar não retrocede”. Normalmente ela vem carregada de um certo tom de alerta, quase como se conhecer o melhor fosse perigoso. Como se, depois de provar algo muito bom, a pessoa inevitavelmente ficasse insatisfeita com a vida real. Mas eu gosto de olhar para essa frase por um outro ângulo.

Porque, sinceramente, eu acho que tem algo muito bom em conhecer coisas boas. Em ampliar repertório. Em descobrir que existe um café mais gostoso, uma cama mais confortável, uma viagem mais leve, uma casa mais acolhedora, uma experiência mais bonita. Nem tudo isso precisa ser visto como luxo vazio ou exagero. Às vezes, é só a vida mostrando que existem outros níveis de prazer, conforto e bem-estar e eu não vejo problema nenhum em querer experimentar isso.

Pra mim, o ponto não é fingir que o simples tem que bastar o tempo todo só para parecer desapegado ou “evoluído”. O simples tem valor, sim. Saber apreciar o que se tem é essencial. Mas isso não significa que a gente precise abrir mão da vontade de conhecer o ótimo. É saudável ter ambição de viver coisas melhores. É saudável querer crescer, refinar gosto, melhorar a própria experiência de vida. O problema não está em desejar o melhor, o problema é perder completamente a capacidade de reconhecer valor no que já existe enquanto o melhor não chega.

Talvez a verdadeira reflexão por trás do “paladar não retrocede” não seja sobre se proteger do que é bom, mas sobre aprender a conviver com isso de um jeito maduro. Experimentar o melhor sem arrogância, aproveitar o conforto sem transformar tudo em obrigação, ter gosto pelo bom, sem desprezo pelo simples. Porque, no fim, uma coisa não precisa excluir a outra.

Eu gosto da ideia de que a vida também é feita para ser expandida. E, muitas vezes, conhecer algo melhor não estraga a gente, só acorda novos desejos, novas referências e novas possibilidades. E tudo bem. Desde que junto com essa vontade de viver o ótimo, a gente continue cultivando gratidão, presença e a capacidade de reconhecer que nem sempre o valor das coisas está só no nível de sofisticação delas.

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